quarta-feira, julho 27, 2005
Refúgio

No novo dormitório, o leito é um esquife ordinário. Agora, irmão legítimo da ameba. Encontra asilo no porão profundo e escava. O cupim negro broca o teto e não atinge o mármore, uma parede doente revela a cara medonha dos buracos, a traça rói a mortalha imunda - tudo percorre a mesma órbita. No inventário da carne podre que fica, ao verme operário das ruínas toca a mais rica porção. Cego, ele só pede luzes.
Ressurreição

Os ventos festejam o fétido odor do novo moribundo. Artérias entupidas, membros paralisados, órgãos falidos, músculos relaxados. Logo a visão do paraíso oxidará suas córneas, a terra infecta lhe cobrirá os rins e os açougues da humanidade serão reabastecidos com a carne moída pelos vermes da Santa Casa de Misericórdia. Subornados, coveiros e carpideiras poderão testemunhar a ressurreição, mas convém enviar mensagem psicografada a cobrar, para viúvas e órfãos crerem na reencarnação.
Mortis causa

Vomita um pulmão na noite terrível. Cancela o crediário na farmácia, faz convênio com a floricultura, dispensa as enfermeiras, contrata um padre para a extrema-unção e convoca as carpideiras para o velório na sala escura. Devolve o leito do hospital, escapa do necrotério imundo, veste a mortalha prematura, encomenda o próprio funeral e pede abrigo na sepultura. Lamentarão sua morte os que sabem que não viveu, apenas movimentou as engrenagens lúgubres; os demais empunharão uma pá carregada de cal e de microorganismos fúnebres.
Colônia

Acorda, cidade maldita, aborto encravado no ventre da mãe gentil! Desperta do nirvana artificial, escapa do sono servil! Traficantes cospem fogo e políticos vomitam lodo sobre vós! Tóxico aroma: algozes encapuzados, cadáveres carbonizados, línguas negras, valas indigentes, redentor crucificado, mosca alegre da putrefação sobre o monte açucarado. Geografia aterrorizante – terra estrumada, reduto da podridão. Lei e infração ao mesmo tempo conforme, espiral de violência e repressão. Proliferação de ratazanas pela falta de veneno adequado: fim da feira moral.
Usurpação

Resgatem o trono do chefe da matilha,
persigam os vermes da sua quadrilha,
conduzam o traidor até a guilhotina,
comemorem o resultado da carnificina,
exibam sua cabeça e os dedos amputados,
convoquem assessores, ministros e deputados,
convidem senadores, chefes de estado, delatores
e todos os membros do partido dos trabalhadores,
decretem o luto oficial com um salmo messiânico
e executem o funeral do torneiro mecânico.
Nojo

A lâmina range no pescoço e os porcos são arrastados para os matadouros, onde receberão a extrema-unção com sal grosso. Os monstros dissecarão seus corpos, cozinharão seus órgãos, engolirão às pressas o alimento azedo e expelirão as gosmas na dor forte do vômito.

Masmorra

Ante-sala do carrasco. Triagem para o cadafalso. Último berço dos abortos mal sucedidos. Recanto da exclusão social. Catacumba dos crucificados menores, a quem a hóstia não homenageará. Cruzeiro de pseudos-Barrabás. Reduto das bactérias maléficas do sistema imunológico da humanidade. Latifúndio dos vertebrados perfilados em direção aos fósseis. Vitrine mórbida da condição humana. A sucessividade dos segundos gera um século. Sinta a solidão coletiva, lidere a rebelião individual. Sofra, mas morra.
Húmus

No subsolo da terra negra, herança da decomposição fertilizante de restos animais, ele colhe o fruto dos séculos que a civilização esmagou. Cremou suas quimeras e espalhou as cinzas do que sobrou. Travou a terráquea luta pela liberdade, mas virou presa fácil para o seu predador. Cultivou a inocência da infância embrionária, fez brotar a morbidez da velhice estacionária e serviu a própria carniça temperada de água benta aos urubus. Com os restos do banquete, fez-se o adubo. E a negra terra resfolegou novamente, estrumada e feliz.
Fluxo de destinos

Necrotério, requietório, cemitério, necrópole, sepulcrário, fossário, adro, almocávar, almocave, campo-santo, cortejo fúnebre, velório, funeral, enterro, luto, vala, cova, caixão, féretro, ataúde, esquife, tumba, urna funerária, arquete, sepulcro, sepultura, túmulo, cripta, jazigo, carneiro, columbário, nicho, ossuário, lápide, baldrame, mausoléu, catacumba, campa, sarcófago, mortuário, calvário, liturgia, mortalha, sudário, epitáfio, exéquias, obituário, necrológio, larvário, gaveta, forno crematório...
Cinzas ou ossos: todos convergem para o mesmo destino.
Memorial





Auschwitz, Belzec, Bergen-Belsen, Birkenau, Buckenwald, Chelmno, Dachau, Flossenburg, Gross-Rosen, Majdanek, Mauthasen, Natzweiler-Struthof, Neuengamme, Plaszow, Nordhausen (Dora-Mittelhau), Ravensbrück, Sachsenhausen, Sered, Sobibor, Stutthof, Terezin, Treblinka, Westerbork, Minsk, Mazowiecki, Kruszaya, Krychow, Maly Trostenets.
A angústia é hereditária.
Autópsia

- Abra os olhos, deixe o mundo entrar! Silêncio. O corpo é um cárcere apertado demais para se cumprir pena perpétua. Escapa. Do ventre para a sepultura, com breve escala pelo caos. Vaga. Tiraram-lhe a vida, mas nao lhe tomaram a morte. Esfria. Autopsiando a inexistência, diagnostica o sofrimento incurável da humanidade e descobre que é o objeto do próprio estudo. Agora dorme. Um corte profundo no tórax expõe vísceras e sentimentos meigos.
Caos

Santa carnificina, paz demoníaca. Guerrilha virtual, batalha cerebral. Sofrimento uno e indivisível - na cópula onde dois são um, na gravidez onde um são dois, no coletivo onde um são muitos. Nascimentos não acrescentam, mortes não desfalcam. A sepultura, quieta, espera pelo homem; a vida é misericordiosa ao tirá-lo do pó, mas a morte, perversa, o devolverá depois, num grande salto de zero para menos. Condenação inapelável ao apodrecimento, produto miserável dos micróbios. Quando as suaves palavras do pregador sucumbirem ao aceno ameaçador do verdugo, cristos e satãs brincarão juntos no vazio playground.
Filosofia negativa

Matilha dos instintos incontroláveis. Universo agonizante – ritmo tenso, filosofante. Biológicas cavernas da consciência humana. Oração - ofício de agonia: o bem e o mal em ebulição, cozinhando na caixa craniana. Insulto cerebral, surto canibal. Aniquilamento – única perspectiva, última luz tragicamente acesa. Antes do suicídio, o assassinato. A vida é um processo químico em que o corpo é só um agregado de sangue e cal. A morte é apenas o retrocesso do processo que leva consigo o primeiro e o último verso.
Síndrome

Não é mais o corpo vivo, mas não é ainda o cadáver. Estacionado na passagem, experimenta diariamente uma pequena morte noturna. Entre a vigília e o sono, surtos de passadismo nostálgico, ecos de sensações vividas e reflexões existenciais, amálgama perfeito entre o ser e o nada. A biografia apodrece na estante seletiva da memória coletiva da plebe, os versos censurados encontram refúgios blindados nos arquivos mentais e o esquecimento se abre pleno de possíveis. Absorve um oceano de perdas, mas não deixa naufragar a célula que te deu origem.
Epílogo

Ambição de fechar os olhos, pretensão de não abri-los mais. Danifica o cronômetro e abrevia a espera. Em cena, o derradeiro drama no teatro da humanidade. O sofrimento abandona os bastidores pela saída de emergência. A desgraça sobe o palco. Despenca sobre a platéia a carga de viver. Fim do último ato.